Vale a pena estar um tempo em Florianópolis. Está tudo lá, em tempo real, uma vez mais - por ser estudado como os geólogos estudam amostras de caudas de cometas para entender como chegamos até aqui. O passado no presente. E acelerado. Refiro-me ao modelo perverso de crescimento das grandes cidades brasileiras nas últimas décadas.

01 Fevereiro 2006

Morte e vida de uma pequena cidade

Começo este blog com a intenção inicial de carpir um doente: a minha cidade. Era um lugarzinho aprazível, com razoável potencial para se tornar uma cidade pequena-para-média atraente, na qual se lançassem idéias corajosas e generosas ao mundo urbano brasileiro. Mas já se foi o tempo em que Florianópolis, a unidade civil, pudesse causar orgulho à comunidade e a outros brasileiros. Hoje ela se juntou às cidades de porte médio que são bombas-relógio sociais. A violência cresce mais do que a do Rio a cada ano, os transportes e espaço públicos são postos de lado no orçamento - e a vida cultural da cidade (teatro, cinema, livrarias, etc.) se aproxima perigosamente do zero. Há 3 (três) grandes centros de compras em construção além dos dois já existentes – numa cidade de 350 mil espíritos –, o que deve acabar de esvaziar o comércio de bairro. Pululam os condomínios horizontais. As ruas e praças se desertificam após certa hora da noite – cenário comum nas cidades brasileiras. A câmara de vereadores aprova qualquer barbaridade (a ser construída sobre o mangue, acima da altura máxima permitida, sem garagens, etc.) para aproveitar o boom imobiliário, com a consequente especulação desenfreada e o resultado que já se sabe: Florianópolis é hoje mais uma cidade dividida, fraturada, separada entre o grupo "nós", com segurança privada, infra-estrutura e “localização”, e o grupo "eles", de subcidadãos apinhados em rincões longínquos e desamparados de aparatos públicos, em vias de favelização. A opção exclusiva pelo uso sistemático do automóvel privado já ficou evidente, como se vê pelo investimento em asfalto e pelo desincentivo do uso de ônibus - o único transporte coletivo, que sequer público é.

Como Paris e Londres em 1900, as maiores cidades brasileiras já viram aonde isto tudo leva, e começam a repensar-se. Em Florianópolis, apenas começamos a nos habituar a viver entre carros buzinando, balas perdidas e um espaço urbano incaracterístico e nevrótico. Até quando? O que fazer? Como analisar o que se passa? Este blog quer ser um espaço de comentário sobre saídas possíveis - e sobre reações locais da Multitude ao laissez-faire todo-privatizante do nosso território urbano.

6 comentários:

Pedro Lemos disse...

Gostei da idéia, Rafael. Certamente passarei mais vezes por aqui para ler os artigos e contribuir como puder. Abs!

rockarei disse...

Gostei muito da sua visão. A realidade poderia ser bem diferente se não escolhessemos nossos políticos como se fossemos ao banheiro. Mas ainda há chance de pressionar para uma mudança. Tenho esperança, e sei que vc também tem - ou não estaríamos usando este espaço.

Amanda disse...

Legal Rafa!
Agora te coloco entre "meus favoritos" no computador. Como urbanista estarei contribuindo quando puder nestes meus dias de correria, e divulgando aos colegas da área. Sobre o artigo, a maior realidade é que bons e ótimos urbanistas estão passeando pelas ruas da ilha fazendo as mesmas perguntas e imaginando diversas respostas. Muitos eu conheço mas, assim como eu, estamos no aguardo da chamada pela Administração Pública. Pena eles não se interessarem por quem detém a informação, mas por quem tem alguma informação.
Beijinhos.

Helman disse...

Prezado amigo,

Quero te parabenizar, com entusiasmo, pela preocupação que manifestas à tua geografia natal e pelo dinamismo e seriedade que dedicas em analisar as ameaças, buscando informar e transformar o viés degradante não só dos aspectos da natureza física bem como os relacionados ao âmbito econômico, social e "humano" de tua cidade. A momentânea escassez de tempo me impede de contribuir de forma mais significativa à tua iniciativa, porém que saibas: me solidarizo contigo e em breve - assim espero - receberás mais do que elogios no conteúdo do que te enviar. Aproveito para divulgar meu "neonato" blog: http://critica-libertaria.blogspot.com/
Um forte abraço!
Helman

Anônimo disse...

É muito difícl discordar de alguém que defende a idéia de que este mundo 'está louco'. Basta partir do princípio de que os dirigentes são insanos ou doentes, como o são o Busch e os dirigentes israelenses (acho que até o Blair). Reduzindo as importâncias chegamos a meteco como esse nosso prefeito que foi inscrito no registro como Dário e deveria ser Dario, aquele da história, sim, GRANDE. Máquina não pode ser prioridade, exceto nos EE.UU, onde o deus é o dinheiro. Agora, convenhamos, deixarmos que os loucos e os corruptos decidam por nós, pode ser também uma prova de insanidade. É aí que ENTRA ESTE BLOG para tentar a diferença necessária.

Anônimo disse...

É terrível querer ser "analfabeto político", querer detestar política, querer execrar políticos em geral e ficar envergonhado por isso. Alguém, lá atrás, convenceu os homens de que a política é um mal necessário. NÃO É. É só um mal. Não quero votar, não quero falar com políticos ou de política.
Quero ficar alheio ao mar de lama que esse senhores protagonizam. Agora vem o pior: não dá mais. sistema dominou tudo e o cidadão não tem mais identidade fora do ESTADO, essa fera institucional que faz tudo errado. Arre!!!

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Rafael Azize
Teresina, Piauí, Brazil
Brasileiro de vários sítios, professor (UFPI), tradutor.
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